terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Só pra partilhar...




Um poema de Cesariny.


Como estreante na sua leitura, depois de rendida ao poeta/pintor surrealista, partilho com vocês um poema que elegi do livro "A Cidade Queimada".


Tantos pintores


A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem




Tantos escritores


A realidade comovida agradece
E continua a fazer o seu frio
Sobre bairros inteiros, na cidade, e algures




Tantos mortos no rio


A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito



Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gosta da realidade
querem-na para um bocado
mas não se lhe chegam muito pode sufocar



Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem verdade
dá voltas à solidão da realidade


Mário Cesariny



Bónus: Um pequeno excerto de uma entrevista publicada no Sol.

Diz que a liberdade devia estar acima de tudo. É essa a essência do surrealismo?
A liberdade, o amor, a poesia. É esta a tríade do surrealismo(..)Era essa a nossa bandeira.

Faz sentido perguntarem-lhe o que é que tem mais peso para si, se a pintura, se a escrita?
À medida que fui agarrando mais a pintura… ou, ao contrário, à medida que ia deixando mais a poesia escrita, ia-me ocupando mais com a pintura. Com a poesia pintada, se quiser. A poesia morde mais o fígado: se odeia, odeia, se não odeia não odeia. A pintura parece uma coisa objectiva, fora de nós. Suja as mãos, limpa-se o pincel, há o cavalete e a tela. A poesia não. É apenas entre a nossa cabeça e o papel.


Sobre o amor...

O Mário apaixonou-se muito?
Acho que a vida sem paixão é um deserto.

Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar".
"É o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia.

O poeta defendia que se pode morrer de amor, mas considerava que "também se pode morrer de falta de amor".