
Ela era uma cadeira.
Desde que se conhecia, desde sempre, que tinha uma profunda consciência disso.
E não era uma cadeira qualquer, tinha braços.
Braços arredondados, daqueles que contêm e amparam. Mas com espaço, Que permitem rodar, inclinar-se para o lado, debruçar-se para a frente, sem nunca perder o apoio.
As costas eram curvas - o mesmo arqueamento dos braços - duas traves largas, paralelas, a um palmo do assento, a um palmo uma da outra. Uma verdadeira harmonia!
Não era estufada. Não, nada desses tecidos ou peles que se enchem de nódoas com o tempo e o uso. Nem de palhinha, essa moda ridícula, própria de cadeiras leves e sem classe.
E as pernas? Esguias, direitas e bem encaixadas na estrutura em quadrado, apoiadas por duas traves laterais, ligadas ao meio numa travessa formando um agá perfeito.
O assento de couro lavrado exibia um brasão com quinas e tudo, homenagem da criatividade do artista ao senhor que lha encomendou.
A madeira de tom dourado e quente e brilho acetinado oferecia um toque macio, que convidava a passar-lhe a mão devagar, detendo-se um pouco mais numa troca de calor mais próxima e familiar.
Tinha história. Se quisesse, e tivesse alguém para ouvi-la, tinha muitas histórias para contar.
Havia sentado muita gente.
Novos e velhos, senhores e até criados. De tudo, até um bispo.
E tinha estado sempre na mesma família.
Fora mandada fazer a um artesão de Viseu, como cadeira de secretária para o escritório da quinta. O senhor gostava de móveis sólidos, de madeira maciça. Queria uma cadeira austera mas confortável, que aguentasse sem vacilar o seu peso de muitas décadas. Sentou-se nela até morrer.
Para o fim já não escrevia, já nem sequer lia, ficava longas horas no Inverno junto à lareira olhando o fogo ou no Verão, no alpendre, o olhar perdido no horizonte, sempre embrulhado numa manta, assim, parado.
Depois foi o filho. Não ligava a nada, nunca parava em casa, muito menos sentado.
Quando tiveram que vender a quinta desfizeram-se de quase tudo. A casa de Lisboa não tinha espaço para nada. Mas quando a mulher perguntou:
- E a cadeira? Ele disse: Não, a cadeira era do meu pai.
E a cadeira foi para Lisboa.
Era uma casa pequena e muito cheia, tinha que estar sempre encostada à parede. Entre a estante dos livros e a porta, era ali o seu lugar.
Nenhum dos outros móveis se lhe aproximava. Ainda bem que apesar de tudo havia a estante. Sempre era uma presença perto de si.
Ás vezes alguém vinha procurar um livro e punha-lhe um joelho em cima para se apoiar, um pé se o livro estava mais alto.
Mas era raro. Eles andavam sempre a correr, não tinham tempo para nada. E os três miúdos eram só TV e jogos, livros nem pensar.
E punham-lhe em cima as coisas que traziam da rua: papeis, jornais, a publicidade da caixa do correio, até os agasalhos de sair.
Só a tiravam do lugar uma ou duas vezes por ano, para lhe passarem um pano quando vinham visitas e havia falta de cadeiras para se sentarem à mesa.
Foi numa dessas vezes que aconteceu aquilo.
No fim do jantar um tio de visita tirou do bolso a mão fechada e disse ao miúdo mais novo:
- “Não adivinhas o que eu tenho aqui.”
Perante o desafio o miúdo precipitou-se para ele, pôs o pé na trave para subir mais e crack, a trave cedeu e rachou ao meio. As duas pernas do lado direito desencaixaram e fizeram-na balançar num equilíbrio precário e estatelar-se no chão.
O dono da casa levantou-se para apreciar os estragos, não sem lançar uma reprimenda à criança e um olhar reprovador ao tio.
Era preciso mandá-la a alguém que soubesse do ofício. Lá lhe encaixou as pernas e as traves como soube e devolveu-a ao seu lugar, encostada à parede entre a estante e a porta.
Assim à vista até parecia que estava tudo bem como antes.
Agora, quando vêm visitas sempre alguém diz: Não, essa cadeira não. Está partida, vamos mandá-la reparar.
Mas ela sabe que não. Já lá vai quase um ano. Nesta casa ninguém tem tempo para nada.
Morre de medo e vergonha, encolhe-se ainda mais buscando a protecção da estante e pensa que, se um dia alguém se apoiar nela e cair, não vão mandá-la arranjar. Vão mandá-la para a arrecadação escura da garagem, - aquela que tem ratos - para o meio daqueles trastes velhos cheios de pó.
Ou, quem sabe, directamente para o frio da rua, de onde talvez alguém a leve – para onde, assim estropiada? – antes que a apanhe o carro do lixo, que passa todas as manhãs rua acima a resfolgar, para recolher o papel e o cartão para reciclar.
Sente-se velha e doente e, tremendo nas cavilhas, reconhece que já não há lugar para ela neste mundo cheio de pressa.
Margarida