quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

PÂNICO


Durante muito tempo, semanas, talvez meses, ninguém se aproximara dela. Desde que tinha acabado o Verão que não vinha ninguém e aquele longo abandono deixava-a ainda mais ainda mais apreensiva. Sabia que a solidão é má conselheira e quando estamos muito tempo inactivos, entregues aos nossos fantasmas mais negros, algo nos corrói, nos debilita e nos deixa marcas que afectam a nossa vida, talvez para sempre.

Agora que eles tinham voltado vivia numa enorme ansiedade.
Cada vez que alguém se aproximava entrava em pânico e mesmo que não olhassem sequer para ela tinha dificuldade em aceitar que, ainda dessa vez, fora um falso alarme e nada ia acontecer.

E tinha pesadelos. Um homem todo vestido de azul, trazendo na mão uma mala pesada que fazia um horrível ruído metálico ao avançar, caminhava na sua direcção, posava a mala no chão, abria-a e começava a retirar de lá objectos retorcidos que brandia aproximando-se dela com ar ameaçador. Claro que sabia que era um pesadelo, por enquanto, mas tinha um ar tão real.
E se tivesse que acontecer um dia, depois de mais um Inverno terrível, passado ao frio e à chuva naquele jardim do qual, apesar de tudo, gostava tanto, mais valia que fosse assim.

Pior que tudo era viver sempre com medo.
Medo de que se alguém da casa se aproximasse, e deitasse a mão ao manípulo, fosse impossível rodá-lo, soldado por um longo Inverno de inacção. Ou este rodasse mas não deitasse nada, nem uma pinga.
Ou, quando a água começasse a correr não parasse nunca mais, as válvulas deformadas pala pressão, a rosca do castelo com folgas, as anilhas corroídas pelo calcário, os vedantes colados pelo calor e a humidade, o filtro entupido pelas areias ou a limalha duma canalização já muito velha. Havia tantas razões para ter medo.

E depois aqueles sentimentos de culpa: como vão conseguir regar o jardim sem mim?
Se eu falhar as plantas vão ressentir-se, ou mesmo secar.
E de injustiça e revolta: eles não sabiam que deviam pôr-me um pouco de massa consistente no fim do Verão?

Claro que não sabiam, não sabem nada, esta gente agora já não sabe nada, jardineiros de fim-de-semana…

Daí o pesadelo do homem de azul. Mas ao menos aquele sabe o que faz!
Parece que já sente a operação: o óleo anti-corrosão a penetrá-la até ao âmago, o golpe da chave de fendas a rasgar o parafuso do topo, a dureza da cave inglesa contra as arestas do castelo, talvez as marcas fundas do alicate de grifos na curva suave da roda de porca, as válvulas e anilhas arrancadas com brusquidão e substituídas sem contemplações. Depois, o estrangulamento da estopa e o aperto. O aperto, enquanto dura, é o pior.


O problema com essa gente é que já não reparam, substituem. Não tratam, matam.
E é tão fácil dizer que já não tem reparação a alguém que não percebe nada do assunto e está sempre cheio de pressa.

E será tão fácil agarrá-la, agora sim bem apertada pelo alicate de grifos, rodá-la toda inteira, desenroscá-la à força da porca que a liga ao cano, e atirá-la displicentemente para o saco de onde partirá directa para o lixo, como algo que já não tem, nunca mais terá, préstimo algum.

Olha à volta. A Primavera marca à sua volta uma aura de calor.
Dentro em breve vai ser preciso regar as flores, os arbustos, a relva.
O jardim é demasiado pequeno para a rega automática. Nem eles iam gastar esse dinheiro todo.
E é demasiado grande para o regador. Quase não podem com ele, não estão habituados.
Vão ter mesmo que usar a mangueira. E para isso precisam de si.

Talvez se lembrem do óleo penetrante, é melhor que nada.
E com o calor que já faz, talvez funcione.
Talvez seja capaz. Tem que ser capaz. Vai ser capaz.


Já sente a mangueira a rastejar pelo chão.
A ligação rápida a encaixar.
O manípulo a rodar.
Começa a sentir a água a circular nos canos.
Ainda não vai ser este ano que o tempo a vence.
Margarida

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