segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Silêncio...


Redondas são as palavras ocas. Na realidade palavras são o que não falta.
Se estamos na rua: palavras; se estamos em casa sozinhos: palavras na cabeça; se queremos descansar e ler um livro mais palavras. Mas se existem tantos sítios com tantas palavras porquê que ainda temos de procurar por mais?


Depois de sabermos as nossas palavras, procuramos palavras dos outros, palavras lá de fora. Da Inglaterra, da China, da Itália, da Holanda, até palavras mortas da Grécia. Quem não quer palavras é porque tem medo delas…. Ou então… tem medo, medo do silêncio! Esta sim é uma palavra… Se estamos no carro ligamos o rádio. Uma música e acaba o silêncio. Mais um momento em que conseguimos fugir. Se estamos em casa ligamos a TV. Claro que sim, para fugirmos ao silêncio.




É que…o silêncio faz pensar e pensa faz agir. E muitos de nós temos medo de agir. Agir é o sinónimo de mudar e mudar de medo. A mudança suporta uma série de novidades, de coisas desconhecidas. O novo é novidade! Ainda não sabias? Por isso, usa as palavras, mas não tenhas medo do silêncio, porque este também se escreve e sem medo…

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Quarta-feira, para onde vais?

Há momentos na vida que são escassos e acontecem duas ou três vezes, talvez, nada mais. Duram o tempo que leva a abotoar um botão, a espreguiçarmo-nos ao sol ou mesmo a dar uma piscadela no olho. Mas são “instantes decisivos”. E embora possamos não nos aperceber disso naquele momento exacto, saberemos um dia quando já estivermos de olhos semi cerrados numa qualquer cadeira de baloiço e não tivermos forças para fazer nada mais senão buscar nas nossas memórias… O que foi, o que podia ter sido... Apanhar o comboio naquele dia foi um desses momentos. Eu sei! Deixei o Porto para trás, cinzento, mas adorado. Fui carregada de medos, inseguranças e dedos apontados para mim. Mas fui. Só eu é que sei porque fui, porque precisava tanto de ir… Em busca de alguma coisa que desejava muito, mesmo não sabendo o que era. E ali estava. Nessa cidade cuja luz inunda a alma de quem por lá passa. Lisboa. Em cada Quarta-feira, não sem inúmeras atribulações, é verdade, fui bebendo o que cada uma me tinha a dizer. O que cada uma pensava, sentia, escrevia. E dei por mim a pensar, a sentir e a escrever coisas que estavam lá no fundo escondidas há tanto, tanto tempo. Regressei ao Porto, que já não vejo cinzento, mas cheio de cores, cheiros e sons que me preenchem. Mas já começo a sentir saudade… Quarta-feira, para onde vais? E elas, alguma vez mais nos cruzaremos nesta vida? Não sei. Mas aquele instante eu nunca vou esquecer…

Para: São (a professora mágica tão querida), Margarida (a sábia contadora de histórias), Joana (a voz e vivacidade perfeitas para as contar), Renata (a fugidia e surpreendente), Susana (a maternal e sonhadora), Helga (a sorridente e encantada), Catarina (a perspicaz e certeira), Sara (a jornalista dos tubarões)…

Beijinhos do Porto!

Elza (Pi)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A CADEIRA





Ela era uma cadeira.
Desde que se conhecia, desde sempre, que tinha uma profunda consciência disso.
E não era uma cadeira qualquer, tinha braços.
Braços arredondados, daqueles que contêm e amparam. Mas com espaço, Que permitem rodar, inclinar-se para o lado, debruçar-se para a frente, sem nunca perder o apoio.
As costas eram curvas - o mesmo arqueamento dos braços - duas traves largas, paralelas, a um palmo do assento, a um palmo uma da outra. Uma verdadeira harmonia!
Não era estufada. Não, nada desses tecidos ou peles que se enchem de nódoas com o tempo e o uso. Nem de palhinha, essa moda ridícula, própria de cadeiras leves e sem classe.
E as pernas? Esguias, direitas e bem encaixadas na estrutura em quadrado, apoiadas por duas traves laterais, ligadas ao meio numa travessa formando um agá perfeito.
O assento de couro lavrado exibia um brasão com quinas e tudo, homenagem da criatividade do artista ao senhor que lha encomendou.
A madeira de tom dourado e quente e brilho acetinado oferecia um toque macio, que convidava a passar-lhe a mão devagar, detendo-se um pouco mais numa troca de calor mais próxima e familiar.
Tinha história. Se quisesse, e tivesse alguém para ouvi-la, tinha muitas histórias para contar.
Havia sentado muita gente.
Novos e velhos, senhores e até criados. De tudo, até um bispo.
E tinha estado sempre na mesma família.

Fora mandada fazer a um artesão de Viseu, como cadeira de secretária para o escritório da quinta. O senhor gostava de móveis sólidos, de madeira maciça. Queria uma cadeira austera mas confortável, que aguentasse sem vacilar o seu peso de muitas décadas. Sentou-se nela até morrer.
Para o fim já não escrevia, já nem sequer lia, ficava longas horas no Inverno junto à lareira olhando o fogo ou no Verão, no alpendre, o olhar perdido no horizonte, sempre embrulhado numa manta, assim, parado.

Depois foi o filho. Não ligava a nada, nunca parava em casa, muito menos sentado.
Quando tiveram que vender a quinta desfizeram-se de quase tudo. A casa de Lisboa não tinha espaço para nada. Mas quando a mulher perguntou:
- E a cadeira? Ele disse: Não, a cadeira era do meu pai.
E a cadeira foi para Lisboa.

Era uma casa pequena e muito cheia, tinha que estar sempre encostada à parede. Entre a estante dos livros e a porta, era ali o seu lugar.
Nenhum dos outros móveis se lhe aproximava. Ainda bem que apesar de tudo havia a estante. Sempre era uma presença perto de si.
Ás vezes alguém vinha procurar um livro e punha-lhe um joelho em cima para se apoiar, um pé se o livro estava mais alto.
Mas era raro. Eles andavam sempre a correr, não tinham tempo para nada. E os três miúdos eram só TV e jogos, livros nem pensar.

E punham-lhe em cima as coisas que traziam da rua: papeis, jornais, a publicidade da caixa do correio, até os agasalhos de sair.
Só a tiravam do lugar uma ou duas vezes por ano, para lhe passarem um pano quando vinham visitas e havia falta de cadeiras para se sentarem à mesa.

Foi numa dessas vezes que aconteceu aquilo.
No fim do jantar um tio de visita tirou do bolso a mão fechada e disse ao miúdo mais novo:
- “Não adivinhas o que eu tenho aqui.”
Perante o desafio o miúdo precipitou-se para ele, pôs o pé na trave para subir mais e crack, a trave cedeu e rachou ao meio. As duas pernas do lado direito desencaixaram e fizeram-na balançar num equilíbrio precário e estatelar-se no chão.
O dono da casa levantou-se para apreciar os estragos, não sem lançar uma reprimenda à criança e um olhar reprovador ao tio.
Era preciso mandá-la a alguém que soubesse do ofício. Lá lhe encaixou as pernas e as traves como soube e devolveu-a ao seu lugar, encostada à parede entre a estante e a porta.
Assim à vista até parecia que estava tudo bem como antes.

Agora, quando vêm visitas sempre alguém diz: Não, essa cadeira não. Está partida, vamos mandá-la reparar.
Mas ela sabe que não. Já lá vai quase um ano. Nesta casa ninguém tem tempo para nada.
Morre de medo e vergonha, encolhe-se ainda mais buscando a protecção da estante e pensa que, se um dia alguém se apoiar nela e cair, não vão mandá-la arranjar. Vão mandá-la para a arrecadação escura da garagem, - aquela que tem ratos - para o meio daqueles trastes velhos cheios de pó.

Ou, quem sabe, directamente para o frio da rua, de onde talvez alguém a leve – para onde, assim estropiada? – antes que a apanhe o carro do lixo, que passa todas as manhãs rua acima a resfolgar, para recolher o papel e o cartão para reciclar.

Sente-se velha e doente e, tremendo nas cavilhas, reconhece que já não há lugar para ela neste mundo cheio de pressa.


Margarida

PÂNICO


Durante muito tempo, semanas, talvez meses, ninguém se aproximara dela. Desde que tinha acabado o Verão que não vinha ninguém e aquele longo abandono deixava-a ainda mais ainda mais apreensiva. Sabia que a solidão é má conselheira e quando estamos muito tempo inactivos, entregues aos nossos fantasmas mais negros, algo nos corrói, nos debilita e nos deixa marcas que afectam a nossa vida, talvez para sempre.

Agora que eles tinham voltado vivia numa enorme ansiedade.
Cada vez que alguém se aproximava entrava em pânico e mesmo que não olhassem sequer para ela tinha dificuldade em aceitar que, ainda dessa vez, fora um falso alarme e nada ia acontecer.

E tinha pesadelos. Um homem todo vestido de azul, trazendo na mão uma mala pesada que fazia um horrível ruído metálico ao avançar, caminhava na sua direcção, posava a mala no chão, abria-a e começava a retirar de lá objectos retorcidos que brandia aproximando-se dela com ar ameaçador. Claro que sabia que era um pesadelo, por enquanto, mas tinha um ar tão real.
E se tivesse que acontecer um dia, depois de mais um Inverno terrível, passado ao frio e à chuva naquele jardim do qual, apesar de tudo, gostava tanto, mais valia que fosse assim.

Pior que tudo era viver sempre com medo.
Medo de que se alguém da casa se aproximasse, e deitasse a mão ao manípulo, fosse impossível rodá-lo, soldado por um longo Inverno de inacção. Ou este rodasse mas não deitasse nada, nem uma pinga.
Ou, quando a água começasse a correr não parasse nunca mais, as válvulas deformadas pala pressão, a rosca do castelo com folgas, as anilhas corroídas pelo calcário, os vedantes colados pelo calor e a humidade, o filtro entupido pelas areias ou a limalha duma canalização já muito velha. Havia tantas razões para ter medo.

E depois aqueles sentimentos de culpa: como vão conseguir regar o jardim sem mim?
Se eu falhar as plantas vão ressentir-se, ou mesmo secar.
E de injustiça e revolta: eles não sabiam que deviam pôr-me um pouco de massa consistente no fim do Verão?

Claro que não sabiam, não sabem nada, esta gente agora já não sabe nada, jardineiros de fim-de-semana…

Daí o pesadelo do homem de azul. Mas ao menos aquele sabe o que faz!
Parece que já sente a operação: o óleo anti-corrosão a penetrá-la até ao âmago, o golpe da chave de fendas a rasgar o parafuso do topo, a dureza da cave inglesa contra as arestas do castelo, talvez as marcas fundas do alicate de grifos na curva suave da roda de porca, as válvulas e anilhas arrancadas com brusquidão e substituídas sem contemplações. Depois, o estrangulamento da estopa e o aperto. O aperto, enquanto dura, é o pior.


O problema com essa gente é que já não reparam, substituem. Não tratam, matam.
E é tão fácil dizer que já não tem reparação a alguém que não percebe nada do assunto e está sempre cheio de pressa.

E será tão fácil agarrá-la, agora sim bem apertada pelo alicate de grifos, rodá-la toda inteira, desenroscá-la à força da porca que a liga ao cano, e atirá-la displicentemente para o saco de onde partirá directa para o lixo, como algo que já não tem, nunca mais terá, préstimo algum.

Olha à volta. A Primavera marca à sua volta uma aura de calor.
Dentro em breve vai ser preciso regar as flores, os arbustos, a relva.
O jardim é demasiado pequeno para a rega automática. Nem eles iam gastar esse dinheiro todo.
E é demasiado grande para o regador. Quase não podem com ele, não estão habituados.
Vão ter mesmo que usar a mangueira. E para isso precisam de si.

Talvez se lembrem do óleo penetrante, é melhor que nada.
E com o calor que já faz, talvez funcione.
Talvez seja capaz. Tem que ser capaz. Vai ser capaz.


Já sente a mangueira a rastejar pelo chão.
A ligação rápida a encaixar.
O manípulo a rodar.
Começa a sentir a água a circular nos canos.
Ainda não vai ser este ano que o tempo a vence.
Margarida

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Cosmos


“Já lá vai o espaço de uma geração…” in “Código do IRS”

“A tributação do rendimento com carácter de generalidade…” in “Código do IRS”

“A décima militar criada em 1641 para fazer face às despesas da Guerra da Restauração…” in “Código do IRS”

Registo de sujeitos passivos” in “Código do IRS”

“Depois de passados 3 anos fui para Jerusalém ver o Pedro e fiquei com ele 15 dias” in
“Índice Remissivo da Bíblia” (?)

“ O rato deu um bocadinho da Lua a provar a cada um dos animais e depois foram dormir muito juntinhos” in “A que sabe a Lua?”

“Como a Lua actua sobre os líquidos terrestres fácil se torna compreender que afecte a seiva e a energia das plantas e lhes transmita as influências do Cosmos” in “Borda de Água 2005”


O COSMOS

Como a Lua actua sobre os líquidos terrestres, fácil se torna compreender que afecte a seiva e a energia das plantas e lhes transmita as influências do Cosmos.
Por outro lado aparece no céu quase todas as noites e mesmo quando é nova e se oculta os animais sabem por intuição, ou ciência milenar, que ela está lá.
Nada mais natural, portanto do que quererem comê-la ou, em versão soft, prová-la.
E como de sujeitos passivos não sobra registo, meteram-se a isso.
Tartaruga, a persistente, Elefante o forte, Leão, o poderoso, Girafa, a mais delicada, Macaco, o mais malandro, Rato, o mais esperto, e … a Mulher Adúltera.
Eu sei que vocês, que leram a história, não deram por ela, mas ela estava lá, ela está sempre lá, mesmo quando ninguém a vê, tal como a Lua Nova, a décima militar e a tributação do rendimento. É da natureza da coisa.

Daí que Pedro tenha rejeitado a Mulher Adúltera, porque ela tinha em si toda a persistência da tartaruga, a força do elefante, o poder do leão, a delicadeza da girafa, a malandrice do macaco e a esperteza do rato.

Na realidade foram necessárias a persistência e a cooperação de todos os animais para cansar a Lua e a preparar para não resistir ao Rato. Mas agora que vocês já sabem, sabem também que não foi só isso, e que, depois de provarem cada um o seu bocadinho de Lua, foram todos dormir muito juntinhos e essa foi a parte melhor.

Depois de passados 3 anos fui para Jerusalém ver o Pedro e fiquei com ele 15 dias.
Cheguei pela Lua Nova e assisti ao fluir da seiva, da energia, do Cosmos e do Pedro, até à Lua Cheia.
Ao fim desse tempo ele já estava por tudo e fomos viver com os bichos.

Já lá vai o espaço de uma geração…




Margarida